[TEATRO] “Sobre Ratos e Homens” (FAAP)

Nesta quarta-feira conferi ao espetáculo “Sobre Ratos e Homens”, história original de John Steinbeck e direção de Kiko Marques no Teatro FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Esta é uma das melhores histórias de Steinbeck (1902 – 1968), um romancista americano do século XX.

George e Lennie são dois amigos que trabalham de fazenda em fazenda em plena crise econômica dos Estados Unidos, em 1937. Dois amigos bem diferentes entre si. George (Ricardo Monastero) é um homem bem esperto e pequeno. Lennie (Ando Camargo) um brutamontes com coração de ouro. Aos poucos vemos a relação entre os dois, agem como se fossem irmãos, George seria o cérebro e Lennie seria o corpo. A primeira cena esclarece que eles estavam em fuga e atrás de um novo emprego. Infelizmente ocorre um acidente no último trabalho e eles são obrigados a fugir.




Lennie é uma pessoa bem excêntrica, meio criança, gosta de coisas fofas, macias e gosta muito de acariciá-las. Tanto que vemos ele tirar um rato morto de seu bolso e alisá-lo, para o desgosto de George, que o reprime. É muito interessante observar a relação entre eles. George meio que dita o que Lennie tem que fazer, quando o instruí a não se pronunciar na próxima entrevista de emprego, na fazenda que iriam assim que amanhecesse.

Os temas abordados são bem intensos. O sonho dos dois seria comprar um pedaço de terra onde poderiam descansar e ter seus próprios rendimentos e serem auto-suficientes, sem precisar pular de fazenda em fazenda, prestando um serviço efêmero para os outros. Lennie pede para George contar desse “sonho” deles diversas vezes, é muito fofo eles falando sobre isso, fantasiar o futuro… O sonho de Lennie é ter muitos coelhos para poder tomar conta e alisá-los, que nem tinha feito anteriormente, numa feira de rua. É muito legal ressaltar aqui como esse personagem funciona. Lennie nunca tinha tido um coelho antes, mas se apaixonou por um peludo, na primeira vez que entrou em contato com um. Quem nunca fez isso? Nem conhece direito, mas já espalha para o mundo que ama certa coisa? hehehe

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Ao chegarem na fazenda, fazem amizade com Candy (Luiz Serra), um simpático velhinho. Logo os três compartilham do mesmo sonho de morarem juntos e serem auto-suficientes, já que Candy ganhou uma grana do proprietário da fazenda ao perder sua mão num acidente. Slim (Gustavo Vaz), um sábio homem trabalhador, percebi que ele era a voz racional da narrativa várias vezes. Carlson (Luciano Shwab), um outro trabalhador meio brutamontes que se oferece para sacrificar o cachorro velho e “fedido” de Candy (essa cena é bem tensa e triste). Crooks (Tom Nunes), um trabalhador negro, que era isolado pelos outros e lhe restava ficar em seu cantinho, lendo livros. Curley (Cássio Inácio) é o filho do proprietário da fazenda, prepotente e arrogante, recém-casado com Mae (Natalia Rodrigues), uma linda mulher que não tinha nenhuma companhia e ficava de olho nos outros trabalhadores da fazenda.

George e Lennie se adaptam nessa fazenda, com estes personagens. Slim rapidamente entende o lado criança de Lennie e lhe dá um filhote de cachorro, que o deixa muito feliz! O ator de Lennie é muito bom, ele se expressa muito bem, me arrancou muitas risadas o jeito espontâneo e o seu carisma! Os problemas vão surgindo, como a desconfiança de Curley com relação a infidelidade de sua mulher, ou os resmungos de Crooks.

George, Lennie e Candy tinham traçado seu objetivo de trabalharem bastante para conseguirem realizar seu sonho de comprar sua própria fazenda. Porém, esse sonho se destrói quando um acidente mata um dos personagens. Não quero contar o que acontece, seria legal o espectador descobrir por si só e pular da cadeira nessa cena (eu fiz isso hahahaha). Mas é um acidente bem triste.

A cena final é de arrancar lágrima dos olhos. Eu gostei muito da peça, da história e dos atores. Acho que teve uma química incrível entre eles para fazer tudo funcionar. Adorei o ator que fez Candy, um velhinho muito bom, cara de sábio e show de interpretação. A história em si traz uma conotação interessante entre relações de homens e seus , talvez”, animais… História de amor e sacrifício. Ama tanto que precisa se desvencilhar dele. Como vemos a morte do cachorro de Candy. Ou o rato morto de Lennie. É algo a se pensar.

Analisando a mensagem por trás da história, me veio muitas lembranças de como perdi meu gato de vinte anos, ele infelizmente ficou velhinho e tivemos que sacrificá-lo. Meus olhos encheram de lágrimas na última cena. É um paralelo interessante, que faz você pensar na sua vida, seus objetivos alcançados ou não. O fracasso de planos. Sabe aquela sensação de criar expectativas e nada daquilo ser realizado? A história lida muito com isso (a exemplo da vida de Mae, que confessa como foi sua vida antes de encontrar Curley).

“Os projetos melhor elaborados, sejam de camundongos ou sejam de homens, fracassam muitas vezes e nos fornecem só tristeza e sofrimento, em vez do prêmio prometido”. É uma passagem escrita pelo poeta escocês Robert Burns, sobre a obra “Sobre Ratos e Homens”.

Lá no passado, conheci esse livro no seriado Lost, quando Ben Linus dá uma lição de moral em Sawyer, quando o aprisiona na ilha-prisão, aquela da estação Dharma: Hydra. Ben fala sobre isolamento e sentimentos reprimidos. Ele cita “Sobre Homens e Ratos”, dizendo que “Um homem fica maluco se ele não tiver ninguém. Não faz diferença quem o cara é, tanto que ele esteja com você. Eu vou dizer a vocês, um cara fica muito sozinho e ele fica doente”. Eles citam essa frase na peça… É algo a ser pensado.

O folder da peça é muito legal! Sou designer gráfico, eu reparo nessas coisas hahahaha. Eu o li antes da peça começar. Foi ótimo para conhecer os oito personagens, ler a introdução do diretor e agradecimento do ator que vive George. Tem uma dupla de páginas que mostram citações dos personagens, achei ótimo para conhecê-los e o que esperar de casa um. Uma frase interessante é a de Slim “A única coisa que um cara tem, que é só dele, é de onde ele vem e pra onde ele vai”. E concordo plenamente, a experiência de cada um é única e é como ele a usa para viver nesse mundo. Enfim, cada personagem tem uma frase de impacto… Me identifico também com a de Crooks “A saudade nada mais é que o sentimento de algo, que era nosso e que por algum motivo não está mais com a gente”. Sou uma pessoa muito nostálgica, amo muito o passado, vivencio o presente, mas sempre me recordo de como o passado me foi feliz…

Depois de tanto divagar aqui, reforço que vocês devem assistir esta belíssima peça! Espero que como eu, fiquem reflexivos, pensativos… A vida está passando rápido para vocês? rs Enfim, “Sobre Ratos e Homens” fica em cartaz de quartas, quintas e sexta-feiras às 20h até 30 de Junho de 2016, lá na FAAP. Uma bela estrutura, cenografia, iluminação e som! Mandaram muito bem! Prestigiem! 🙂

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Me chamo Edu D’Angelo, mais conhecido como Chase Faster! Nasci em Outubro de 1984 (Libra com ascendente em Libra) e sou um Proudly Nerd assumido! Sou apaixonado pelo universo Geek (Action Figures, Comics, Animes, Filmes dos Anos 80, Seriados antigos, Teatro, Circo, Exposições e Shows) e desde 2006, crio um Setlist mensal com as músicas que mais ouvi naquele mês. Dez anos depois, estou aqui relatando tudo o que venho vivenciado por São Paulo, com muita nostalgia oitentista.